Existe algo profundamente irônico no que está acontecendo com o Brasil agora.
Durante décadas, o brasileiro aprendeu a olhar para fora antes de olhar para dentro. A viagem dos sonhos era para a Europa. O produto de prestígio tinha rótulo importado. O chinelo Havaianas era “brega”. A camiseta da seleção, fora dos dias de jogo, era “cafona”. O funk era “coisa de favela”.
E então o mundo mudou de perspectiva — e revelou o que os brasileiros não conseguiam ver por estarem perto demais.
O que era “brega” virou tendência global. O que era “cafona” estampou vitrines em Paris, Milão e Tóquio. O funk carioca está nas playlists da Europa. As Havaianas foram o item mais cobiçado do mundo no terceiro trimestre de 2025, com alta de 34% no Lyst Index. E as buscas por “Brazilian culture” no Google atingiram seu maior pico em 20 anos na primeira semana de fevereiro de 2026.
Isso tem um nome: Brasil Core. E ele não é apenas uma tendência de moda. É um sinal de algo muito maior acontecendo — com implicações diretas para o turismo, para os destinos e para as comunidades que trabalham com a hospitalidade brasileira.
O que é o Brasil Core?
O Brasil Core é o termo que surgiu nas redes sociais para descrever uma estética construída em torno dos símbolos mais reconhecíveis da cultura brasileira: as cores verde, amarelo e azul; as estampas tropicais; o crochê; as Havaianas; a camisa da seleção; o funk; o carnaval; a exuberância da natureza.
O Brazil Core se tornou uma das estéticas mais comentadas nas redes sociais de moda, do TikTok ao Instagram, levando o jeito de se vestir do Brasil para vitrines, desfiles e influenciadores no exterior. Esse movimento não foi criado por agência de marketing ou campanha governamental. Ele emergiu organicamente, impulsionado por algoritmos e por um momento em que o mundo, cansado de incertezas, busca alegria, autenticidade e calor humano.
O soft power tem peso concreto. A carioca Farm Rio ultrapassou 100 lojas e mais de 2.000 pontos de distribuição globais em 2025, com crescimento no mercado internacional de 21% (O TEMPO, 2026). A bateria da Mangueira encerrou o desfile da grife francesa Chloé na Semana de Moda de Paris. A marca PatBo teve peças usadas por Beyoncé. Rihanna e Hailey Bieber abraçaram a estética brasileira publicamente.

Dois anos seguidos no topo do cinema mundial
Se alguma dúvida restasse sobre o protagonismo cultural do Brasil, o Globo de Ouro resolveu. Wagner Moura fez história ao vencer o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama por “O Agente Secreto” (CNN BRASIL, 2026), repetindo o feito de Fernanda Torres, que venceu como Melhor Atriz em 2025 por “Ainda Estou Aqui”. Duas vitórias seguidas. Não é coincidência — é tendência. O cinema brasileiro vem provando que tem narrativas potentes, originais e universais (FAUSTOLEITE.COM.BR, 2026).
No discurso transmitido para o mundo, Wagner Moura encerrou com: “Viva o Brasil! Viva a cultura brasileira.” Não foi um gesto vazio. Foi o resumo de uma virada.

Os números que transformam tendência em realidade
Tendência cultural é bonita. Mas o que interessa para quem trabalha com turismo é quando ela se converte em fluxo real de pessoas e desenvolvimento.
O Brasil recebeu quase 9,3 milhões de visitantes estrangeiros em 2025 — número nunca antes registrado, representando crescimento de 37,1% em relação a 2024. O desempenho colocou o Brasil como o país com maior expansão no fluxo internacional de turistas no mundo (MELHOR INVESTIMENTO, 2026). Para referência: a meta do governo federal era 6,9 milhões. O Brasil superou a própria projeção em mais de dois milhões de turistas.

Visitantes estrangeiros injetaram R$ 29 bilhões na economia nacional, crescimento de 11% em relação ao ano anterior (VISITE O BRASIL, 2025). E o sinal mais revelador: 90% dos visitantes estrangeiros afirmam que recomendariam o Brasil, enquanto apenas 2% relatam avaliação negativa da experiência (PANROTAS, 2026).
Esse índice indica que a experiência real está à altura do imaginário construído nas redes sociais — algo que muitos destinos tentam e poucos conseguem.
O que está por trás dessa virada
Há uma confluência de fatores que criaram esse momento:
O mundo busca exatamente o que o Brasil tem. O novo viajante quer autenticidade, emoção, natureza de verdade, gastronomia com identidade. O Brasil surge como referência global no contexto de um mundo marcado por crises e desafios de saúde mental, o que faz crescer a busca por experiências descontraídas e positivas (BANNWART, 2026).
Os grandes eventos funcionaram como catalisadores. As edições do “Todo Mundo no Rio”, com Madonna, Lady Gaga e Shakira, colocaram o país no centro da agenda global da música pop. A Copa do Mundo de 2026, em curso agora com a seleção buscando o hexacampeonato, amplia essa visibilidade em escala planetária.
O setor produtivo respondeu. O setor têxtil e de confecção brasileiro faturou mais de R$ 220 bilhões em 2025, consolidando-se entre os cinco maiores do mundo, com cerca de 25,7 mil empresas e 1,34 milhão de empregos diretos (O TEMPO, 2026).

O desafio que ninguém quer enfrentar
Tudo isso soa como boa notícia. E é. Mas existe uma pergunta incômoda que precisa ser feita — especialmente por quem trabalha com turismo sustentável:
O Brasil está preparado para receber o interesse que desperta?
O Brasil Core criou um imaginário poderoso. Mas imagens precisam de estrutura por trás. Quando o turista aterrissa em um destino inspirado pelo universo colorido das redes sociais, o que ele encontra de fato?
Como apontam pesquisadores da USP, a circulação internacional dos elementos culturais brasileiros envolve disputas simbólicas e interesses econômicos. De um lado, há elementos que promovem mudança cultural real; de outro, existem questões puramente estéticas, atendendo a modismos e a uma dinâmica de mercado em que esses conteúdos são consumidos de forma apenas comercial (JORNAL DA USP, 2026).
A distinção tem implicações diretas para o turismo. Um destino que usa a estética sem construir experiência real está apostando em tendência passageira. Um destino que traduz essa visibilidade em produto turístico qualificado, genuíno e sustentável está construindo algo duradouro.
O Brasil sempre foi visto como um mercado forte, mas interno. A oportunidade para receber pessoas de todo o mundo é enorme — tem Rio e São Paulo, conhecidas no mundo inteiro, mas tem muito mais Brasil: no Sul, no Nordeste, há muito mais a ser descoberto (ADIT BRASIL, 2025).
Esse “muito mais Brasil” é onde está a maior oportunidade — e o maior risco.

O momento de agir é agora
O Brasil Core não vai durar para sempre como hype. Tendências têm ciclo de vida. Mas o que pode durar muito além da tendência é a estrutura construída agora: a governança dos destinos, a qualificação das experiências, a organização da oferta, o envolvimento das comunidades.
A combinação entre diversidade cultural, natureza preservada, autenticidade territorial e expansão da conectividade aérea colocou o Brasil no radar estratégico internacional (PANROTAS, 2026). Esses pilares não surgem do acaso — são resultado de décadas de resistência cultural, conservação ambiental e hospitalidade. O desafio agora é garantir que o crescimento do fluxo não degrade exatamente o que atraiu os visitantes.
Destinos que aproveitarem esse momento para se organizar, qualificar sua oferta e fortalecer sua identidade territorial estarão bem posicionados não só para a hype do momento, mas para os próximos anos. Destinos que esperarem que o hype faça o trabalho por si verão o fluxo chegar e ir embora sem deixar muito para trás.

O Brasil não precisa mais pedir licença
Durante muito tempo, o brasileiro precisou de validação externa para acreditar no que tinha. Esse ciclo está sendo quebrado.
O chinelo que era brega está nas passarelas. O samba abriu o desfile de uma grife parisiense. O cinema ganha prêmios globais por dois anos consecutivos. E os turistas chegam — mais de 9 milhões em 2025, o maior crescimento do mundo — para confirmar que o Brasil, de fato, entrega.
Mas a entrega não é automática. Ela é construída. Destino a destino, experiência a experiência, gestão a gestão.
O Brasil Core abriu a janela. Cabe ao turismo brasileiro — com planejamento, sustentabilidade e visão de longo prazo — transformar essa oportunidade em desenvolvimento real.
O mundo descobriu o que o brasileiro sempre soube. A pergunta agora é o que o Brasil vai fazer com esse olhar.
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Referências
ADIT BRASIL. Turismo brasileiro entra em fase madura de crescimento e executivos projetam expectativas para 2026. Disponível em: https://adit.com.br/turismo-brasileiro-entra-em-fase-madura-de-crescimento-e-executivos-projetam-expectativas-para-2026/. Acesso em: 13 maio 2026.
ARCHTRENDS PORTOBELLO. Brazilcore: como o nosso país virou tendência internacional. Disponível em: https://blog.archtrends.com/brazilcore/. Acesso em: 13 maio 2026.
BANNWART, Gisele. Brasilidades em alta: quando identidade cultural se transforma em oportunidade de mercado. NIS Summit, Limeira, 11 mar. 2026. Disponível em: https://nisummit.com.br/en/brasilidades-em-alta-quando-identidade-cultural-se-transforma-em-oportunidade-de-mercado/. Acesso em: 13 maio 2026.
CNN BRASIL. Globo de Ouro 2026: Wagner Moura faz história e vence prêmio de Melhor Ator. São Paulo, 12 jan. 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/entretenimento/globo-de-ouro-2026-wagner-moura-faz-historia-e-vence-premio-de-melhor-ator/. Acesso em: 13 maio 2026.
FAUSTOLEITE.COM.BR. Wagner Moura no Globo de Ouro 2026: marco da cultura brasileira. 12 jan. 2026. Disponível em: https://faustoleite.com.br/wagner-moura-globo-de-ouro-2026-cultura-brasileira-mundo/. Acesso em: 13 maio 2026.
JORNAL DA USP. Brazil Core e a disputa de sentidos da estética brasileira no exterior. São Paulo: Universidade de São Paulo, 3 mar. 2026. Disponível em: https://jornal.usp.br/atualidades/brazil-core-e-a-disputa-de-sentidos-da-estetica-brasileira-no-exterior/. Acesso em: 13 maio 2026.
MELHOR INVESTIMENTO. Turismo internacional no Brasil bate recorde em 2025 e coloca o país no radar global de viagens. 31 jan. 2026. Disponível em: https://melhorinvestimento.net/noticias/turismo-internacional-no-brasil-recorde-2025-crescimento-global. Acesso em: 13 maio 2026.
O POVO. Brasil está na moda e é tendência no turismo mundial para 2026. Fortaleza, 17 jan. 2026. Disponível em: https://mais.opovo.com.br/jornal/reportagem/2026/01/17/brasil-esta-na-moda-e-e-tendencia-de-destino-internacional-para-2026.html. Acesso em: 13 maio 2026.
O TEMPO. Brazilcore: tendência que exalta ícones nacionais vai além da moda e impacta outros setores. Belo Horizonte, 11 maio 2026. Disponível em: https://www.otempo.com.br/moda-e-beleza/2026/5/11/brazilcore-tendencia-que-exalta-icones-nacionais-vai-alem-da-moda-e-impacta-outros-setores. Acesso em: 13 maio 2026.
PANROTAS. Por que o Brasil está na moda e o que muda para agências e operadoras? São Paulo, 30 mar. 2026. Disponível em: https://www.panrotas.com.br/mercado/destinos/2026/03/por-que-o-brasil-esta-na-moda-e-o-que-muda-para-agencias-e-operadoras_227072.html. Acesso em: 13 maio 2026.
VISITE O BRASIL. Turismo internacional movimenta R$ 29 bilhões no Brasil em 2025. Disponível em: https://www.visiteobrasil.com.br/news/turismo-internacional-brasil-2025/. Acesso em: 13 maio 2026.